“Icarização” da Arte Feminina, Sally Rooney e rímel
- Sofia Dias

- 28 de jan. de 2023
- 6 min de leitura
Atualizado: 8 de nov. de 2025
Em 1971, Linda Nochlin fez uma das perguntas mais provocantes do meio artístico: “Porque é que não houve grandes artistas mulheres?”. Evitando o impulso de listar nomes que refutam a questão, Nochlin argumenta que não é que essas artistas não tenham existido ou que lhes faltasse “grandeza”; simplesmente, essa grandeza nunca lhes trouxe retorno, nem económico nem social, devido aos obstáculos institucionais que impediram as mulheres de serem vistas como “génios”, tal como os seus pares masculinos.
Desde então, três grandes movimentos feministas alteraram o panorama cultural, e várias artistas conseguiram atravessar a linha que as separava dos homens no que diz respeito ao reconhecimento e ao capital. Sally Rooney, Ottessa Moshfegh e Phoebe Waller-Bridge são exemplos de mulheres plenamente integradas no meio literário e artístico, cujo trabalho recebeu aclamação internacional. A maioria de nós já leu Normal People, My Year of Rest and Relaxation e desenvolveu um fraquinho por padres jeitosos. Obrigada, Andrew Scott, ámen.
Contudo, embora as suas obras tenham marcado a cultura popular, muitos ensaístas defendem que o fizeram de forma negativa. O argumento é, em linhas gerais, este: este tipo de media incentiva e romantiza uma tendência perigosa, protagonizada por mulheres brancas que se distanciam do mundo real e se deleitam na sua própria miséria induzida pelo patriarcado. A esta tendência deu-se o nome de “Feminismo Dissociativo”. Este pode ser definido como a escolha de se alienar da realidade, uma reacção à extrema positividade promovida pelo chamado girlboss feminism (ou, sendo directas, o feminismo liberal). A dissociação voluntária, dizem os críticos, é um privilégio reservado às mulheres brancas e ricas, um luxo que as mulheres marginalizadas não podem simplesmente usufruir.
Assim, o tipo de media criado por Rooney, Moshfegh e Waller-Bridge é frequentemente descrito como uma espécie de “pornografia triste”, em que mulheres brancas e privilegiadas se afastam da realidade, nadando na própria miséria e desistindo da luta contra o patriarcado ao adoptarem comportamentos tóxicos e “não feministas”. Esta visão implica que tais obras teriam uma influência negativa sobre as mulheres que as consomem.
Enquanto leitora e feminista que leria até a lista de compras da Sally Rooney, quero argumentar que considerar o trabalho destas três autoras prejudicial para o feminismo é ignorar completamente as suas complexidades narrativas e o propósito das próprias obras.
As mulheres retratadas por Rooney, Moshfegh e Waller-Bridge, embora aparentemente equipadas com todos os privilégios sociais (brancas, bonitas, de classe média, recetivas aos homens), dirigem o ódio para si mesmas, para o corpo, para a voz, para a forma de estar no mundo. E, perante isto, impõe-se a pergunta: porque é que mulheres que detêm tanto poder social estão tão interessadas em destruir-se? É quase o mesmo que perguntar porque é que o Hamlet enlouqueceu, sendo um príncipe bonito: “Oh não te mates, és tão sexy!”.
Há algo de problemático em tratar a dissociação nestas obras como uma escolha consciente. Fazer isso é ignorar o contexto das narrativas e as mensagens que as sustentam. A introspecção psicológica é o centro destas histórias por uma razão. As personagens são privilegiadas, sim, mas a sua autoaversão não existe num vácuo. Não é uma manobra estética das autoras para escrever “mulheres tristes”, mas um espelho das forças sociais e emocionais que as moldam. Essas personagens são todas, de algum modo, movidas pelo trauma: Fleabag perde a mãe; Marianne, em Normal People, carrega as cicatrizes do abuso paterno e fraternal; e a protagonista de My Year of Rest and Relaxation, muitas vezes acusada de romantizar doenças mentais, é antes uma sátira à alienação capitalista e à esterilidade da riqueza. Moshfegh cria nela uma espécie de “avatar da beleza”, para expor a forma como o capital estético permite a uma mulher sobreviver, mesmo desligada do mundo.
Ainda que detenham poder público, estas protagonistas não o têm na esfera privada, e é nessa falta que se consome a sua rebelião. É verdade que é um privilégio poder objectificar-se por dentro, mas o motivo pelo qual o fazem está dentro da própria obra, não numa intenção de fetichizar a tristeza feminina.
Por isso, dizer que estas narrativas promovem a fadiga feminista é perder de vista o essencial: elas retratam as contradições de ser simultaneamente um ser humano e uma mulher condicionada pelo patriarcado. Eu, por exemplo, gosto da atenção de homens, mas também sou feminista. É uma batalha que muitas travamos. Quando estamos a pôr rímel e surge aquela voz interior a sussurrar “és uma falsa feminista”, até espetarmos a escova no olho, é nesse momento que percebemos: pensar que uma feminista não sucumbe ao patriarcado é acreditar que o feminismo já não é necessário.
O problema do “Feminismo Dissociativo” não está nos textos, mas na forma como a cultura os recebeu. O problema não está na tristeza retratada, mas na sua recepção. O marketing destas obras usa a linguagem da identificação: “És uma clean girl? Cool girl? Female manipulator? Sad girl? Ah, és uma Sally Rooney girl, miserável e atraente.” As mulheres, em busca de sentido perante a alienação que o sistema impõe, agarram-se a estas identidades, que o mercado prontamente transforma em produtos. A tristeza é estetizada, arrancada do contexto e transformada em adereço, algo que, curiosamente, os homens já fazem há séculos através do male gaze.
Importa também lembrar que Rooney, Moshfegh e Waller-Bridge nunca pretenderam representar “a experiência feminina universal”. Rooney, marxista convicta, reviraria os olhos se alguém dissesse que as suas obras captam “o que é ser mulher no século XXI”. Representar uma mulher específica é, de facto, mais revolucionário do que tentar representar todas. A tentativa de universalizar a experiência feminina é, inevitavelmente, excludente.
Quando Waller-Bridge é explicitamente política, ou quando Rooney insere discussões forçadas sobre o materialismo dialéctico, o texto perde força. A arte destas autoras brilha precisamente quando não tenta ser revolucionária, quando a mensagem se infiltra por entre as entrelinhas, pela textura do quotidiano.
Rooney escreveu:
“Não sei se já te mencionei isto antes, mas há alguns anos comecei a escrever um diário, ao qual chamei de 'o livro da vida'. Comecei com a ideia de escrever uma entrada curta por dia, apenas uma linha ou duas, descrevendo algo bom. Suponho que por 'bom' queria dizer algo que me deixou feliz ou me trouxe prazer. (…) E ler essas entradas agora, lembrou-me do que senti ou pelo menos do que vi, ouvi e notei. (…) O rosto das pessoas, o clima, o trânsito, o cheiro de gasolina, a sensação da chuva, coisas completamente comuns. E assim até os dias maus eram bons, porque eu sentia-os e lembrava-me de os ter sentido. Havia algo delicado em viver assim - como se eu fosse um instrumento e o mundo tocava-me e reverberava dentro de mim. (…) A certo ponto, pensei que era impossível sentir novamente o que aparentemente senti uma vez em relação à chuva ou às flores. Não foi só porque falhei em ser encantada por tais experiências sensoriais – é que eu parecia já nem as ter sequer. (…) Algumas noites atrás, estava num táxi a ir para casa depois do lançamento de um livro. As luzes nos escritórios vazios lembravam-me de alguma coisa, e eu estava a pensar em ti, a tentar imaginar a tua casa, acho eu, e lembrei-me que recebi um e-mail teu, e ao mesmo tempo pensei no Simon (…) De repente, o mundo parecia capaz de incluir essas coisas boas novamente, e os meus olhos eram capazes, o meu cérebro era capaz, de recebê-las e entendê-las. (…) lembro-me de pensar aonde quer que eu vá, tu estás comigo, e ele também, e enquanto vocês viverem, o mundo será bonito para mim.”
A genialidade (sim, chamemo-la pelo nome, há que admitir, no seio profundo da nossa sociedade, que as mulheres também poder ser génios) das obras femininas encontra-se nestes momentos subtis, nas entrelinhas, entre a chuva e o trânsito, entre o banal e o sublime. Retratar a depressão feminina e o conflito interior das protagonistas é construir uma feminilidade complexa, que não cabe nem na girlboss babe nem na dona de casa.
Não devemos tornar a arte das mulheres unidimensional. Não a transformemos em Ícaro, não sejamos o sol que lhe derrete as asas. Antes, abracemos os seus voos, celebremos os seus sucessos e aprendamos com os seus fracassos.




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