valor sentimental, janeiro
- Sofia Dias

- 6 de fev.
- 2 min de leitura
os meus olhos reparam no teu choro calado, pela periferia.
na minha cara corre uma gota que segue o seu longo caminho até ao meu pescoço.
respirações. tosse. ressonar?
pessoas a dar as mãos e a dar beijinhos.
marcas da porta na parede branca. marcas de fita cola na parede branca. gaveta que não fecha. marcas da gaveta que não fecha na parede branca.
não sei porque quando nos cortamos num dedo o levamos à boca.
os teus olhos ficam com rugas quando sorris e acho que é, de longe, a coisa mais bonita que já vi.
saio de casa e não levo a chave de propósito para alguém me ter de abrir a porta, para me dizerem sempre: és muito bem vinda, novamente, entra.
mil pacotes de gomas no chão, porque o miúdo não chegava à prateleira de cima, então, decidiu saltar.
adoro piano e fico triste de nunca ter aprendido a tocar. se calhar se tivesse aulas também nunca as terminava.
o coração aperta. a respiração para por uns minutos. o mundo é tão sensível como uma pétala de uma papoila e é meu, todo meu. apetece-me abrir bem a boca e comê-lo, triturá-lo e prendê-lo numa mandíbula.
ler o que escrevemos e dar graças por já não termos a mesma mão que pegou na caneta.
a minha mala está sempre desarrumada e a tralha dá cambalhotas sempre que tenho de encontrar o passe. tenho vergonha de ser a última a passar a cancela. juro que tenho. não quero atrasar ninguém com a minha bagunceira.
ficar com um bigode de açúcar.
desenhar enquanto se ouve conversas alheias. lamento a morte do seu amigo, senhor José.
estar feliz, estar tão feliz que só apetece chorar.
estar feliz por se ter muita vontade de ser feliz. querer ser triste é… muito triste.
lembrar-me de tudo, porque é tudo um pouco bastante importante.
ter 5 cadernos e escrever uma frase em cada um, no máximo.
sentir o corpo cansado. dançar muito e mexer o cabelo de forma sexyzona.
ser obcecada por uma caneca que tinha uma espécie de barriga para dentro. estava grávida.
não saber argumentar oralmente, mas dar uns toques nas teclas.
poder escolher fatias paridas com açúcar e canela ou mel. ou os três.
cheirinho de pescoço e olhinhos inchados.
perder meias dentro da cama.
enrolar o punho no meu dedo indicador.
escrever nunca foi uma profissão, um afazer sem o qual se morre para mim. é simplesmente não se saber onde se mete isto tudo e decidir metê-lo aqui. vou tentar fazer uma lista igual todos os meses.




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