no fim, virei racha na parede
- Sofia Dias

- há 15 horas
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um dia, despiste-te. camada por camada. primeiro recebi um cachecol, depois uma camisola interior, umas calças de ganga e um sutiã. olhava para ti, sem dizer nada. pousaste as tuas camadas em mim e eu não fiz barulho nenhum.
precisavas de um sofá. escolheste verde, porque estava na moda e eu forrei-me para ficar como gostas. às vezes, porque estavas cansada, atiravas-te com força e só se ouvia o som suave do choque entre a minha imobilidade e o teu afundar.
quiseste ser erudita, virei estante. cheia de pó, tentava não espirrar, porque os livros estavam a dormir o seu terceiro sono.
fui promovida a centro de mesa. era importante, tinha os livros mais caros e pesados em cima e tinha uma forma engraçada. servia para tudo, mesa de jantar, apoio de pés, coliseu de feras para as noites de jogos, onde fingias saber de trivia e eu fingia não saber que fazias batota na trivia.
eventualmente, paraste de falar sueco e chateaste-te com o ikea. quiseste-me de lá para fora.
no fim, virei racha na parede. tentaste limpar-me lambendo o pulgar e enfregando-o na parede, mas não saia, não era sujidade, lembraste-te que me tinhas criado quando chocaste os meus outros eus com muita força contra a parede.
enquanto os levavas da tua casa para o asfalto da rua.




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