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A Sabrina Carpenter é mais engraçada que o teu namorado

  • Foto do escritor: Sofia Dias
    Sofia Dias
  • 29 de ago. de 2025
  • 4 min de leitura

Aficionada como sou por pop culture (e honestamente por passar demasiado tempo na aplicação do antigo pássaro azul), a discussão vibrante e enraivecida em torno da capa do novo álbum da Sabrina Carpenter não me foi indiferente. As opiniões divergiam: uns esperavam mais da cantora de metro e meio – onde está o feminismo dela?? Isto é bastante prejudicial ao movimento feminista, vamos andar mil anos para trás! Querer ser tratada como um cão, onde é que isto já se viu? Puxarem-lhe o cabelo? E o male gaze?? Que puta... Sabrina Carpenter? Mais Sabrina Thatcher! Os irlandeses deviam fugir dela... O Barry já o fez, rest his soul.


Do outro lado, congratulavam-na pela sua libertação sexual, por se representar como quer. Apreciaram a abertura dela em demonstrar que gosta de sexo tabu. Já não se pode ser feminista e gostar que me puxem o cabelo? Por favor...


Dividida entre os argumentos, percebi que grande parte dos comentadores, apesar de peritos em teoria feminista, grandes Simone’s Beauvoir do nosso tempo, não eram lá grande peritos na arte da cantora da canção do verão. O que pensei na altura confirmou-se meses mais tarde, quando ouvi pela primeira vez o sétimo álbum da Sabrina - não se pode julgar o livro pela capa e há que sair mais à rua.


Perceber a Sabrina Carpenter é entender que não há ninguém tão self-aware do que é ser ela como... ela própria. Tem uma lente cómica e afiada para os próprios estereótipos que representa, goza consigo própria e com os homens que escolhe (o que é também uma forma indireta de gozar consigo). Man’s Best Friend é o álbum mais Sabrina que já foi feito: o próprio título e a capa dizem-no, transmitem perfeitamente o lore da cantora, tiram-lhe a roupa, fazem uma tour à sua casa e dão de bandeja a tese da artista– grande parte das relações que as mulheres têm com homens é sobre dar e receber poder and that sucks. Estar numa relação (de qualquer tipo) é saber que às vezes estamos numa trela, completamente à mercê de nos partirem o coração, de se fartarem de nós e de ficarmos muito felizes quando nos dão um biscoito. Ora, mas o melhor amigo do homem também gosta muito de correr pelos campos, livre e feliz, gosta de correr atrás de pássaros sem ser repreendido e, muitas vezes, morde quando não o alimentam ou quando o chateiam muito.


A história que a Sabrina pretende contar é sempre esta – o amor é humilhante e o amor heterossexual ainda mais. Querer que um homem nos deseje muitas vezes choca com o nosso respeito pessoal, há que admitir. Em “Tears” (o hino do álbum, diria), a Polly Pocket admite que fica molhada quando o homem lhe monta uma cadeira do Ikea ou lava a loiça, ridiculariza-se, porque sabe que muitas de nós ficamos entusiasmadas quando nos dão o bare minimum. Contudo, chateia-se quando o seu parceiro fica bastante racional a certo ponto da relação – como assim já não estás obcecado comigo? Ugh, como assim agora tens autocontrolo? Contradiz-se completamente – na primeira faixa goza com homens por serem estúpidos e tolinhos, mas zanga-se quando eles começam a ter capacidade de autocontrolo em “My Man on Willpower”. Ela sabe que morde, sabe que não é submissa na relação, reconhece que exerce poder sobre os parceiros e até os manipula em “Don't Worry, I'll Make You Worry”.


Continuando com o tom tongue-in-cheek, também fomos presenteados com as típicas músicas cheias de piadas sexuais à la Sabrina, onde a comédia é uma espécie de agência sobre a própria vida sexual – “You don't need to love me, love me, love me / I'm just so proud of my design (to dim the lights)” ("House Tour") e “Put your loving where your mouth is, Your sugar talking isn't working tonight, oh / Say you're a big changed man, I doubt it / Yeah, your paragraphs mean shit to me / Get your sorry ass to mine” ("Sugar Talking"). Ela reconhece que, às vezes, a boca dos homens é preferível a fazer outras coisas do que a emitir sons, que se transformam em palavras, que se transformam num monólogo, que se transformam numa vontade enorme de fazer uma soneca.


Por fim, o álbum, por trás de melodias viciantes e groove dos anos 80, explora a vulnerabilidade e a intocabilidade que se experiencia, simultaneamente, numa relação – e fá-lo sendo mais engraçada que o teu namorado. Man’s Best Friend é desejar que os homens morram todos, mas querer beijá-los. É tratar uma música pop com respeito e craft. É ser emancipada e feminista, mas saber que fazes parte de uma sociedade (we live in a societyyyyy) que te faz desejar demasiado o interesse masculino. É self-pitying por estar sempre a ser a vela da function. E é saber dizer “Arrivederci, au revoir. Forgive my French, but, fuck you, ta-ta” quando se torna tudo muito aborrecido ou a trela começa a asfixiar ao ponto de querermos ter uma arma. Sim, Sabrina, a tua casa é na Pretty (e witty) Girl Avenue!

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