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é a vida inteira com medo de ter acidentes de carro, mas nem sequer ter a carta de condução, março

  • Foto do escritor: Sofia Dias
    Sofia Dias
  • há 3 dias
  • 2 min de leitura


sinto-me tão dentro de mim que,

mesmo perto,

ninguém me consegue tocar.

mesmo que me operassem ao coração e tivessem que lhe fazer cpr,

não me chegariam a entrar pelas entranhas a dentro.


a felicidade devia ser um bolinho que se dá numa bandeja

(eu acho que já escrevi isto)

já tudo foi escrito

por mim, por outros

nem sei porque continuo a fazer isto

sai tudo feio

eu volto sempre ao mesmo

sempre

sempre

sempre

volto sempre a colar a bochecha no colchão

volto sempre a olhar para a parede

volto sempre a colar a bochecha no colchão, a olhar para a janela e a respirar

volto sempre a colar a bochecha no colchão, a olhar para a janela, a respirar e a desejar

estar a beijar alguém toda suada

falar outra língua que não a minha

estar a beijar alguém que fala uma língua que não a minha

TUNTS TUNTS TUNTS

DON'T YOU WISH YOUR GIRLFRIEND WAS HOT LIKE M-

NÃO CONSIGO OUVIR NADA AQUI DENTROOOOO

E MESMO QUE OUVISSE

NÃO PERCEBO CARALHO DO QUE ESTÁS A DIZER

é para o melhor

é para o melhor a disco culture ainda não está morta, veem?

o que me falta é ir dançar ou

estudar astronomia

estudar astronomia e linguística ao mesmo tempo,

estar a estudar astronomia e linguística ao mesmo tempo e dizer:

“prudência? não me venham falar em prudência!

ficar careca e gritar “que se foda a prudênciaaaaaaa, meus grandes filhos da putaaaaa!”


mas em vez disso,

tenho demasiado cabelo na cabeça

a franja cola-se à testa e

colo a bochecha no colchão,

olho para a janela,

repiro e

vejo os carros passar e não entro em nenhum

vejo os carros passar, não entro em nenhum e não ocupo o lugar do condutor

nem do pendura

(muito menos o do pendura)

porque eu ainda sou eu

(mesmo se fosse careca)

e estou para tirar a carta de condução há 3 verões.

 
 
 

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